Para Uma Educação Além do Capital
Pautadas para atender a um aluno idealizado a partir de um projeto escolar elitista, meritocrático, homogeneizador, as escola produzem quadros de domesticação. Por processos compensatórios e de normalização a escola proclama o seu poder e propõe, sutilmente com base em características devidamente selecionadas pelo sistema capitalista como positivas, a eleição arbitraria de uma identidade de rótulos que regula suas práticas educativas e a promoção de seus alunos. Contrariar a perspectiva de uma escola que se pauta por esses padrões impostos pela ideologia capitalista é fazer a diferença. No desejo de assegurar a homogeneidade dos alunos, destroem-se muitas diferenças. Mas a identidade fixa, estável, acabada, própria do sujeito cartesiano unificado e racional está em crise e a idéia de uma identidade móvel, volátil e capaz de desconstruir o sistema de significação domesticado, elitista da escola atual, está se construindo. De certo que as identidades naturalizadas dão estabilidade ao mundo social, mas a mistura, a hibridização, os diferentes as desestabilizam, construindo uma estratégia provocadora, questionadora e transgressora de toda e qualquer fixação de identidade.
A escola tem resistido a mudanças de pensamentos, conceitos e fazem com que ela escape pela tangente e se livre do enfrentamento necessário pra essa mudança com sua organização pedagógica excludente e ultrapassada. A adaptação escolar predefinida pelo professor ensina o aluno a ser dependente e limitado, negando-lhe oportunidade de construir conhecimentos, segundo as suas capacidades. É ainda uma maneira de manter a velha fórmula de decidir pelo outro, de impor-lhe um padrão de superioridade ou inferioridade, estabelecidos por relações de poder/saber hegemônicas, que controlam de fora o que o aluno pode ou não ser, aprender e conhecer. Assegurar o direito à não domesticação é ensinar a incluir todas as outras formas de conhecimento e, se a escola não tomar para si essa tarefa, a sociedade continuará perpetuando a exclusão nas suas formas mais sutis e mais selvagens e, certamente, a educação para a não domesticação será apenas um sonho e a educação, um processo a mais, que nos desumaniza e embrutece.
O currículo escolar é estruturado por disciplinas e o seu conteúdo é selecionado pelas coordenações pedagógicas, pelos livros didáticos, enfim, por uma “inteligência”, que define os saberes úteis e a seqüência em que devem ser ensinados na escola. Isso é o que chamamos de domesticação, pois essa “inteligência” visa somente ensinar o que é válido para o capitalismo, para manter seu status, para que os alunos que saiam da escola sejam completamente moldados de acordo com seus interesses. O conhecimento transmitido pelos professores corresponde a verdades prontas, absolutas, imutáveis e reprovam-se os alunos que tentam vencer a subordinação intelectual. Com esse perfil organizacional, falar em não domesticação faz com que o espaço escolar seja invadido e todos os seus domínios tomados de assalto. A escola e o sistema capitalista se sentem ameaçados por tudo que criaram para se protegerem da vida que existe para além de seus muros e paredes – novos saberes, novos alunos, novas pessoas, outras maneiras de resolver problemas, formas de contestar e transgredir esse projeto educativo e de sociedade vigentes.
De fato, a escola se entupiu de formalismo da racionalidade e cindiu-se em modalidades de ensino, tipos de serviços, grades curriculares, burocracia. Uma ruptura de base em sua estrutura organizacional é uma saída para que ela e a sociedade possam fluir. Diante disso, a escola não pode continuar ignorando o que acontece ao seu redor, anulando e marginalizando as diferenças nos processos por meio dos quais, forma e instrui os alunos. E muito menos desconhecer que aprender implica em representar o mundo, e não apenas reproduzir esses valores escrotos do capitalismo. Na aceitação desses valores dá-se a domesticação, e manifesta-se das maneiras mais diversas e perversas, e quase sempre o que está em jogo é a manutenção do status da sociedade e dos interesses do capital, além também da ignorância do aluno, diante dos padrões impostos por tal. Ocorre que a escola se democratizou apenas para a elite, excluindo os que ignoram o conhecimento que ela valoriza e, assim, entende que democratização é massificação de ensino, e não cria a possibilidade de diálogo entre diferentes lugares epistemológicos, não se abrindo para opiniões que não cabem dentro dela. Os sistemas escolares estão montados a partir de um pensamento que recorta a realidade, que permite subdividir os alunos. A lógica dessa organização é marcada por uma visão determinista, mecanicista, formalista, reducionista própria do capitalismo, que ignora o subjetivo, o afetivo, sem os quais não conseguimos romper com o velho modelo, para produzir a reviravolta.
É certo que as relações de poder presidem a produção das diferenças na escola, mas a partir de uma lógica que não mais se baseia na igualdade, como categoria assegurada por princípios liberais, inventada e decretada, a priori, e que trata a realidade escolar com a ilusão da homogeneidade, promovendo e justificando a fragmentação do ensino em disciplinas, modalidades de ensino regular, hierarquias de conhecimento (como vemos com a matemática que reina absoluta). Ao nos referirmos, hoje, a uma cultura global e globalização, parece contraditória a luta de grupos minoritários por uma política identitária, pelo reconhecimento de suas raízes, como fazem os negros, as mulheres, os homossexuais. Há, pois um sentimento de busca das raízes e de afirmação das diferenças. Devido a isso, contesta-se hoje a modernidade nessa sua aversão pela diferença. Nem tudo deve ser igual...
Se o que pretendemos é que a escola não domestique para o capital, é urgente que seus planos se redefinam para uma educação voltada para a cidadania global, plena, livre de preconceitos e que reconheça e valorize as diferenças. Chegamos a um impasse, pois para se reformar a instituição temos de reformar as mentes, mas não pode reformar as mentes sem uma prévia reforma das instituições. Os subterfúgios teóricos que distorcem propositalmente o conceito de não domesticação, de não reprodução do capital, condicionada a capacidade intelectual, social e cultural dos alunos, para atender as expectativas e exigências da escola precisam cair por terra, porque sabemos que podemos refazer a educação escolar, seguindo novos paradigmas, preceitos e ferramentas, desconstruindo a máquina obsoleta que dinamiza a escola, os conceitos sobre os quais ela se fundamenta e os pilares teórico-metodológicos em que ela se sustenta. (Autor desconhecido)
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